“Seu sonho era escrever! Então agora toma esse banho, come alguma coisa, enfia uma roupa e vai. Com nove anos eu escrevi em meu diário “não vejo a hora de sentir dor”. Me assustei quando li isso, já adulta, mas lembrei exatamente o que eu estava sentindo naquele dia que escrevi isso. Eu sentia uma angustia profunda mas eu tinha uma vida ótima de criança cheia de brinquedos e amores e comidas. Então por que aquela angústia desgraçada? Eu queria logo ter um problema bem grande, algum motivo pra sofrer. Pra justificar meu sofrimento eu queria ter motivo pra sofrer. Meu avô, quando dava umas seis da tarde, ligava pra minha mãe no trabalho e avisava “a menina vai começar com as faltas de ar de novo, já falei que pode ser asma”. Dai minha avó se metia, e também ligava pra minha mãe no trabalho “é colite nervosa, são gases”. Dai o cardiologista achava que era o meu prolapso da válvula mitral, mas que isso não era nada. O gastro achava que era bactéria. E o alergologista achava que era alergia à produto de limpeza, por conta de minha rinite, mas que também não era nada. Minha mãe mandava meu avô tirar minha febre. Meu pai perguntava se eu tava vomitando. Eu nem tinha febre e nem vomitava. Mas por dentro eu tinha febre e vomitava e tinha asma e tinha bactérias e estava alérgica e estava tendo uma parada cardíaca. E lá fora estava sol e dava para eu ser feliz.”
TB
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