O longa começa quando Renato é acamado por conta de uma doença degenerativa. Surge um poeta. Seguindo uma linearidade cronológica, Renato, após a sua recuperação, imerge no movimento punk dos anos 1970 em Brasília, o reduto da política, em plena Ditadura Militar. Nessa fase, que acontece antes e durante a formação da banda Aborto Elétrico, vemos um Renato indignado com a política do País, com os próprios pais, com o “sistema”. É durante esse momento de consternação que o público conhece como foi o processo de composição de sucessos como “Que País é Este?”, “Música Urbana”,“Geração Coca-Cola”.
Após o Aborto, o músico então inicia uma busca de si e se intitula como “O Trovador Solitário”. Durante esse período holístico nasceram os hits “Eduardo e Mônica” - criado em homenagem a um casal de amigos -, e “Faroeste Caboclo”, que surge após uma visita de Renato à Taguatinga.
Do “Trovador Solitário” para o Legião foi um pulo. Nesse intervalo, o rock brasiliense é apresentado de maneira bem pontual. Dinho Ouro Preto aparece tomando as rédeas do Capital Inicial em seus momentos de berço. Além de Dinho, quem dá as caras é Herbert Viana, do Paralamas do Sucesso, que junto com seu irmão Hermano Viana dá total suporte à carreira de Renato. Os jovens de hoje ou até mesmo os não tão jovens não conhecem o Herbert dos anos 70 e 80, mas é perceptível o quão caricato ficou a interpretação do jovem Edu Moraes.
Em pouco mais de uma hora e meia de filme, Somos Tão Jovens passa por uma fase bastante movimentada na vida de Renato Russo, que vai desde a sua descoberta como músico até o fechamento de um contrato de show no Circo Voador, no Rio de Janeiro.
Thiago Mendonça até que não faz feio. Embora a sua voz não tenha ficado tão parecida com a de Renato, ator conseguiu captar traços característicos do cantor, como os gestos com as mãos quando canta, a mania de ficar ajeitando os óculos e até o jeito romanceado de falar.
Somos Tão Jovens é um filme bonito de se ver, emocionante, que faz você cantar desde o início – com “Tempo Perdido” – até o final – com “Será”. O longa não conta desde o nascimento até a alavancada na carreira, como Breno Silveira fez com a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano em Dois Filhos de Francisco, ou a complicada relação familiar também de Breno em Gonzaga – De Pai Para Filho, apenas relata de maneira rápida a formação de um músico e a criação de seus sucessos. Não vá ao cinema procurando saber mais do que já sabe, contente-se em cantar junto com os outros que estiverem com você na sala – e isso é inevitável!
Dona Carmem: "Eu não queria que ele (o diretor) incluísse cenas de Júnior drogado para que não influenciasse os jovens"
Mãe de um dos principais ícones do rock brasileiro, Dona Carmem Mafredini traz nos olhos a energia de Renato Russo nos palcos. Nesta conversa com o Correio, ela conta suas impressões sobre os filmes que homenageiam o líder da Legião Urbana e detalhes da vida do filho, o "sempre" Júnior (Renato Manfredini Júnior). O problema do alcoolismo, a orientação sexual e a genialidade do filho são comentados por ela com a franqueza e o carinho de uma mãe atenciosa e presente."Queria que Júnior fosse diplomata"
Qual é o balanço que a senhora faz sobre Somos tão jovens e Faroeste caboclo?
O Faroeste caboclo é uma liberdade poética. Cada um de nós imagina aquele filme de uma maneira diferente. O filme agradou muito o público na pré-estreia. René Sampaio (o diretor) pegou os principais temas da música — o desfecho achei bem interessante —, contextualizou com uma Brasília dos anos 1980, ficou bem interessante. Sobre Somos tão jovens, há algumas coisas que não procedem, como o início do filme em que Júnior cai de bicicleta, nunca existiu isso. Outra foi aquela em que ele empurra o pai. Júnior podia estar bêbado o quanto fosse, mas ele não encostava um dedo na gente. Comigo ele era só carinho, me beijava… dizia que eu não era culpada pelo que ele estava fazendo. Dizia que bebia e tomava drogas porque gostaria de saber a sensação que as pessoas tinham para usar em seus versos. Era um laboratório num primeiro momento. Ele tinha um pouquinho de pé atrás com o pai, porque o pai era aquele italianão seco, não tinha jeito. E Júnior se ressentia muito disso.
Somos tão jovens é a história que Dona Carminha contou sobre o filho?
Não é não. Antonio Carlos da Fontoura pegou depoimento de muita gente. Ele ficou muito tempo de caderninho e gravador na mão pegando o máximo de informação. Fez um trabalho grande. Eu não queria que ele incluísse cenas de Júnior drogado para que não influenciasse os jovens. Porque a parte do Júnior drogado era um laboratório para meu filho. Ele dizia: “Usei todos os tipos de droga para saber como uma pessoa se sentia em cada uma delas, porque eu usava tudo em meu trabalho”.
O álcool foi a droga que prevaleceu mais?
Foi a mais difícil. Júnior morreu limpo, sem nenhuma droga no corpo. Denise Bandeira (atriz e amiga) o levou a uma clínica de desintoxicação no Rio, inclusive ele fez uma música, a 29 dias, período em que passou internado. Ele só teve recaída de álcool. O cigarro ele nunca deixou. Hoje a gente sabe que o alcoolismo é uma doença. Eu não sabia.
Quais cenas de Somos tão jovens que mais comoveram a senhora?
Primeiro, o Thiago Mendonça é a cara do Júnior (risos). Era até gordinho, porque Júnior era gordinho naquela fase. Depois é que ele ficou muito magro. A cena do primeiro show em cima de um caminhão me lembrou muito aqueles tempos. Vi o Júnior ali! As imagens dele com a irmã também me emocionaram bastante. Eles eram muito amigos. Gostei muito das cenas familiares, como aquela dos lanchinhos que eu servia para ele e os amigos (risos).
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