Acabou. Um dia, sem aviso, depois de mais uma briga, ele vai. Ela fica. E em qual dos dois dói mais?
Quem fica, fica com uma infinidade de lembranças. A memória de tudo o que foi feito naquele sofá. Ou os cantos da casa que ainda guardam o cheiro da ex-pessoa-amada. Aquela poltrona preferida, aquela caneca velha que guarda resquícios do último café tomado, aquele abajur quebrado na última briga. Quem fica, fica com objetos esquecidos atrás da porta, a frase rabiscada na parede e o armário revirado. Com o colchão da cama que ainda guarda a posição do corpo. A toalha esquecida, eternamente molhada depois do último banho. Os filmes que ele deixou em cima da estante, o livro que não acabou de ler e os bilhetes que deixou ao longo dos anos. Quem fica convive com as paredes, as janelas e as portas de uma casa que desabou, mas continua em pé.
Quem vai, vai com os resquícios de um coração que partiu. Além de seu próprio coração partido. Vai, sabendo que pode se arrepender um dia de não ter ficado. Vai com a sensação de culpa na boca do estômago. E a impressão de que desistiu no meio de tudo. Quem vai convive com as incertezas de um caminho desconhecido. E com a certeza de que quem ficou não vai esperar. Vai com a dor de ter ido mesmo quando pediram que ficasse. E sem saber se teria acertado se insistisse mais uma vez, se tentasse só mais um pouquinho. Quem vai, vai deixando um vazio na casa e no próprio peito. E fica um pouquinho lá, esquecido em cantos, rabiscos e paredes, pra ver se quem ficou lembra, só de vez em quando, de não esquecer para sempre. Quem vai convive com as memórias embaçadas de uma vida deixada em um ambiente para o qual não vai mais voltar.
E em quem, no fim, meu Deus, dói mais?
Não importa.
Acabou.
Quem fica, fica com a decepção de uma porta batida na cara.
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