domingo, 9 de junho de 2013

Quando a gente é criança, morrer significa virar uma estrela. Ou morar com Deus. Ou se mudar para uma nuvem. Qualquer coisa bonitinha que os adultos contam para que tudo fique mais fácil para a gente entender. Na verdade, quando a gente é criança, a gente não precisa entender o que é morrer para abraçar bem forte os pais antes de dormir. A gente não precisa pensar que um dia eles não estarão lá para ficar com eles uma noite inteira. Ou para pedir que eles contem uma história. Ou para apenas sussurrar: “eu amo vocês". Quando a gente é criança, a gente não precisa saber o que é a morte para aproveitar a companhia de quem a gente ama. A gente só aproveita.

Quando a gente cresce, morrer nunca é bonito. E sempre dói de um jeito nada fácil. E sempre é duro. E sempre faz chorar. E sempre parece o ponto final. Sem estrelas, sem céu, sem nuvens, às vezes, para alguns, até sem Deus. E aí, quando a gente cresce, a gente se arrepende de não ter aproveitado quem a gente amava quando ela ainda estava viva. Porque a gente simplesmente esquece. Compromissos, contas, rotina, problemas. A própria vida faz tudo na vida passar batido. Acredita?

Na infância, os amores platônicos são para sempre. Então, a gente ama mesmo. Pelo menos, do jeito que uma criança sabe amar. Quando a gente é criança, a gente se preocupa por que o amiguinho está chorando. E acha que o Papai Noel é uma mistura de Deus com um velhinho carinhoso de um lugar bem frio. E acredita que o papai coloca o bebê na barriga da mãe com uma sementinha. Sexo é beijo, maldade é só uma palavra feia e um brinquedo pode ser a coisa mais sensacional do mundo. Quando a gente é criança, a China fica mesmo de cabeça para baixo.

Quando a gente cresce, o coração arranja cicatrizes e deixa um pé atrás em todos os outros amores. E a gente desaprende a amar do jeito infantil – que, muitas vezes, é mais maduro do que muitos outros amores. A gente passa reto do colega chorando. E para de acreditar em papai Noel. Às vezes, gente para de acreditar em qualquer coisa. Sexo é só sexo, a maldade domina e o dinheiro nunca é suficiente para comprar todos os brinquedos que a gente realmente queria. Quando a gente cresce, a China é só um lugar no planeta que talvez a gente nem queira conhecer.

Quando a gente é criança, a gente ri sem motivo, não segura o choro e pede carinho quando quer. Quando a gente cresce, a gente se esquece de rir todos os dias, engole o choro para não parecer fraco e se afasta das pessoas antes que elas se afastem da gente. A gente percebe que há, sim, monstros debaixo da cama, mas, principalmente, monstros dentro da gente. E aí a gente esquece. De tudo aquilo que a gente costumava acreditar quando era criança - e que a gente jurou, jurou, que nunca ia abandonar.

E você, o que esqueceu depois que cresceu?

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